Kurt Kraut

batendo tambor com o Ubuntu

A Vida é OpenSource

Muito antigamente, você juntava todas as suas economias e comprava um computador. Logo em seguida, comprava uma penca de programas para executar em seu computador e tudo isso era maravilhoso. Hoje, não só comprar um computador ficou mais barato (com linhas de financiamento e incentivos fiscais do governo) como também não é necessário mais comprar programas para seu computador pois boa parte deles são gratuitos e livres.

Note bem a diferença: gratuito significa que você não tem que pagar pelo seu uso. Livre, significa que você é livre para distribuir (copiar) o programa e fazer modificações nele. Essas modificações são fundamentais para o avanço tecnológico hoje. Não estamos mais presos ao que um programador ou uma empresa acha sobre como devemos usar nosso computador. Nós mesmo podemos modificar nossos programas favoritos ou utilizar modificações feitas por quem saiba fazê-las de forma a atender nossas necessidades individuais.

Para que essa liberdade exista, o programa tem que ser OpenSource, ou seja, a sua programação, a forma como foi construído, os seus ingredientes, sejam abertos, vistos por qualquer um. O OpenSource virou quase que sinônimo de modernidade tanto que a Microsoft, maior empresa de informática de código fechado do mundo, cogita tornar OpenSource algumas de suas ferramentas.

Mas o OpenSource existe muito antes de entusisastas como Larry Wall ou Richard Stallman. O OpenSource existe, neste universo, há cerca de 3 bilhões de anos atrás. A vida é OpenSource desde seus primórdios. Temos então como o primeiro código fonte a molécula de DNA.

DNA

O DNA é um polímero, um coletivo de monômeros, algo que se assemelha a peças de LEGO® encaixadas uma após a outra. Enquanto computadores falam binário, a vida fala uma linguagem quaternária, representada por quatro moléculas chamadas bases nitrogenadas, que são: Citosina, Guanina, Adenina e Timina. Por uma questão de simplificação, utilizamos apenas a primeira letra de cada uma dessas bases para representá-las.

O DNA é uma fita dupla onde essas bases sempre se pareiam entre si. Toda Guanina de uma fita irá efetuar pontes de hidrogênio (m.q. ligação) com uma Citosina da fita complementar e vice-versa. Da mesma forma, toda Adenina irá parear com as Timinas da fita complementar. Então sempre teremos códigos aos pares: C-G e A-T. Essa duplicidade do código fonte da vida tem inúmeras vantagens. Quando houver algum erro ou algum dano, podemos conferir a fita complementar. Se por acaso perdermos uma base e observarmos que na sua fita complementar temos um T, saberemos que a base faltosa é uma Adenina.

O significado desse código é muito simples: proteínas, que são polímeros de aminoácidos. Cada três bases vizinhas em uma mesma fita significam um aminoácido. Por exemplo, as bases TCG significam o aminoácido Cisteína. Como podemos pegar qualquer organismo, isolar seu DNA e ler as bases que o compõe, conseguimos saber que proteínas ele é capaz de produzir. E isso tem um impacto tremendo.

Se você tivesse uma doença causada por bactérias, seu médico receitaria um antibiótico. Se fosse por fungos, um fungicida, por vermes, um vermicida. E quando a sua doença está no seu DNA ? Que remedio ele receitaria ? Como a vida é OpenSource e livre, podemos ler seu código e modificá-lo. Se o gene (trecho do DNA que confere uma característica ao organismo) da insulina de um indivíduo não funciona corretamente, ele será diabético. Ao invés de tomar injeções de insulina diariamente, por que não pegar um gene, um trecho de DNA normal para insulina e incorporar neste indivíduo para que ele naturalmente produza insulina ?

É nesse caminho que a Biologia está trilhando. Doenças antes incuráveis como diabetes, Mal de Parkinson ou a predisposição a certos tipos de câncer podem ser reparados em definitivo. Basta corrigir o trecho do DNA que provoca estas doenças e o processo para isso é bastante inusitado.

Os vírus são o terror da plataforma Windows e um dos agentes mais eficazes da migração da plataforma Windows para Linux, que é livre de vírus. Os vírus que afetam seres vivos basicamente o fazem alterando o DNA do hospedeiro. As aftas que de vez em quando podem surgir em nossa boca é em decorrência de um tipo de vírus. Ele ao infectar nossas células introduz em nosso DNA humano o DNA viral que fica latente, aguardando um momento propício. Assim que nossa imunidade baixa, esse DNA viral é lido pelas nossas células como um DNA qualquer e elas mesmo produzem as aftas dentro da boca como se fosse uma ação natural qualquer do nosso organismo.

O que estão tentando hoje é utilizar todo este know-how do vírus de invadir e modificar o DNA em nosso favor. Vírus como o HIV ou o da Herpes são excelentes modificadores de DNA. A idéia é pegar estes vírus, remover por manipulações no DNA viral os genes responsáveis pelas doenças que estes vírus causam e substituir por versões corrigidas do DNA humano. Ou seja, este HIV modificado ao invés de provocar a AIDS irá provocar a correção da produção de insulina em um diabético.

Se a vida é regida por uma licença, esta é BSD*. Qualquer um pode patentear e nos vender nosso próprio DNA. Ou pior, como o conhecimento sobre a manipulação de vírus está crescendo, não é impossível hoje que doenças virais sejam criadas e disseminadas propositalmente para que depois o antídoto seja vendido.

Nitidamente o futuro da humanidade é OpenSource. Desde a tecnologia acessível a todos de uma forma responsável, colaborativa e de qualidade até a cura de doenças antes incuráveis. Mas para que o caminho certo seja seguido, a sociedade tem que exercer um papel de vigilância constante. Da mesma forma que temos lutar contra a patente de softwares que castra o crescimento do Software Livre, temos que lutar para que os avanços da terapia genética sejam considerados de tamanha importância que também não possam ser patentiados ou utilizados para fins desumanos.

December 15, 2005 - Posted by | Planetas

5 Comments »

  1. Estou simplesmente impressionado com a qualidade das informações do seu post. Excelente mesmo. Jogou luz sobre muitos ponto para mim. Parabéns por discertar tão didaticamente e mostrando as relações intrínsecas entre os dos temas.

    Comment by neveslopes | December 15, 2005 | Reply

  2. Grande artigo Kurt! Me trouxe lembrancas da epoca que tudo que eu fazia era involvida na area de bioquimica! Posso sugerir que voce escreva sobre o BLAST e outras ferramentas usadas no campo?

    Abracos,

    Og

    Comment by Og Maciel | December 15, 2005 | Reply

  3. Não questiono a parte informática do artigo, mas não posso, como diabético a 10 anos, de esclareçer o seguinte:

    “Se o gene (trecho do DNA que confere uma característica ao organismo) da insulina de um indivíduo não funciona corretamente, ele será diabético. Ao invés de tomar injeções de insulina diariamente, por que não pegar um gene, um trecho de DNA normal para insulina e incorporar neste indivíduo para que ele naturalmente produza insulina ?”

    Ao que deu a entender a leitura, pareceria facil implementar o DNA corrigido em T O D A S as celulas do organismo. Impraticavel pelo número de células existentes. Tem-se como opção hoje transplantar as Ilhotas de Langerhans ou o transplante do pancreas (o primeiro mais seguro e o segundo em demasia arriscado). Bom, transplantar não e recriar o DNA.

    Por outro lado, o que encaixaria corretamente no seu artigo, seria as pesquisas sobre as células tronco, pois elas sim, podem ter seu DNA modificado e da mesma forma se reproduzirem virando praticamente qualquer tecido ou célula. O grande intuito mesmo é usar as células-tronco para que se forme estas ilhotas (Langerhans islets para quem quiser procurar em ingles.) e as mesmas serem implantadas. Um comentário adicionalmente politico é que este desenvolvimento está freiado, por conta de leis que proíbem a manipulação das células tronco, por motivos aparentemente moralistas. Ai pergunto, a liberdade está aonde se não pudermos analizar e modificar para nossas necessidades?

    Comment by Leonardo Silva | December 16, 2005 | Reply

  4. ### CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES ###

    Em resposta a alguns comentários, eu gostaria de frisar que esse texto é uma *SIMPLIFICAÇÃO* tremenda sobre o DNA para aproximá-lo da informática para que não tomasse muito tempo/espaço para leitura. Tanto que entidades importantes como o RNA sequer foram mencionadas.

    Portanto, agradeço a preocupação de alguns comentários em preencher certas lacunas mas gostaria de frisar que jamais me propus em um texto tão pequeno abordar todo o universo do DNA.

    Responendo ao Leandro Silva, uma injeção no pâncreas de vírus modificados com o gene da insulina corrigido seria possível sim. Tanto que já existe o chamado ‘dopping genético’ onde injeções com vírus/DNA artificiais no músculo de atletas induzem a hipertrofia do músculo. Se a injeção cair em grande quantidade na corrente sangüína, a atuação será tão generalizada que irá provocar um ataque cardíaco. Portanto, essa terapia genética por vírus é bastante específica, bastante localizada.

    A idéia de trabalhar com esses vírus manipulados surgiu na década de 60, e a pressa em desenvolver essa tecnologia foi tão grande que migaram para testes em cobaias humanas muito antes do ideal e portanto já tivemos desde infecções de HIV/Hepers até a morte de algumas cobaias huamans voluntárias.

    Esse susto freiou o desenvolvimento da terapia genética que aos poucos, com mais responsabilidade está voltando a caminhar.

    Quanto as leis moralistas, isso é um problema local que se equivale a leis ou projeto de leis locais contra o software livre: elas artificialmente impedem/restrigem algo que é naturalmente livre. É uma liberdade tomada, porém, não inexistente. E no Brasil a legislação permite o estudo com embriões humanos sim.

    Mas a terapia genética seria uma boa alternativa para esses entraves religiosos/legais/moralistas pois não envolvem células-tronco nem conflitos dessa ordem.

    Abraços,

    KurtKraut

    Comment by KurtKraut | December 16, 2005 | Reply

  5. Porque o diabetico apresenta hálito de maçã? O que faz aparecer esse odor? seria possível apresentar isso em fluxograma? Todos os passos

    Comment by Marise | September 5, 2006 | Reply


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